Botequim 2.0
Digressões inúteis sobre...


quarta-feira, abril 30, 2003  

A caverna de Saramago

Numa sociedade em que um grande centro comercial (o Centro) determina as relações econômicas, um oleiro vê sua fonte de renda sentenciada à morte quando este Centro decide não mais comprar as louças que ele fabrica artesanalmente. Suas opções são permanecer na casa de campo com a olaria inativa ou mudar-se para o Centro com a filha e o genro, que lá trabalha como segurança. O oleiro Cipriano Algor é um resquício do passado, sua atividade já não interessa e o que lhe resta, aparentemente, é esperar pela morte.
Este é o núcleo da trama de "A Caverna", de José Saramago, uma alegoria sobre o conflito entre capital e trabalho que serve de metáfora à economia globalizada em que vivemos. Um centro econômico onipotente determina o destino das pessoas como melhor lhe convém, enquanto estas se deixam anestesiar e alienar por diversões tecnológicas e pelo consumismo. A metáfora do Centro é dupla: além de simbolizar o poder econômico, representa o templo de consumo, e neste aspecto trata-se de uma cidade dentro da cidade, uma cidade limpa, segura e previsível, protegida por paredes gigantescas e aparatos de segurança da cidade suja, corrompida e habitada pelos excluídos.
A referência ao mito da caverna platônico foi escancarada quando do lançamento do livro, mas no texto ela se dá de forma bem menos óbvia do que se imagina. O conflito principal se mistura a outros temas recorrentes em Saramago, como a função das palavras e dos silêncios no relacionamento humano, ou melhor, a imprecisão da linguagem em expressar os sentimentos humanos, muito mais complexos e variantes do que as línguas são aptas a transmitir; a inexorabilidade do destino, mudando o que será amanhã por mais que se tracem planos hoje, e a fragilidade da existência humana, em contraponto ao poder do livre arbítrio e do amor (filial, sensual, fraternal) como força redentora capaz de fazer luz e esperança onde só havia trevas e incertezas.
De certa forma, a alegoria é até despretensiosa, na medida em que o autor não propõe solução alguma – talvez por não haver solução, talvez por a visão de Saramago ser justamente esta, a de que os dias se sucedem e o homem a tudo se adapta. Está longe de ser o mais impactante dos livros de Saramago (ainda prefiro o "Ensaio sobre a cegueira" e "A Jangada de Pedra"), mas sem dúvida é daqueles que causam um ligeiro e inexplicável incômodo, uma sensação de melancolia e impotência ante a percepção de que vivemos num mundo não muito diferente do daquela alegoria.

posted by Maloca | 10:50 PM



terça-feira, abril 29, 2003  

Mairiporã 2003: o efeito 'Canelinha'


"Hoje alegre, amanhã bem"
(slogan de Rum Montila)


Minha garganta estava seca como se eu houvesse engolido um saco de cal. Ou como disse mais tarde o dono da casa, parecia um corrimão da Febem. Por mais que estivesse cansado, era impossível tentar dormir mais um pouco. Levantei do colchonete e desci o mais rápido que pude as escadas em direção à cozinha. A dona da casa, única pessoa acordada além de mim, me olhou com cara de espanto, imaginou que fosse pôr as tripas para fora ali mesmo, na cozinha que ela acabara de limpar. "Tá pasando mal? Vai pro banheiro", disse quase em tom de súplica. "Não, tô na boa, só preciso de água". Água ou qualquer coisa do tipo, pensei. Abri a geladeira, a primeira coisa que vi foi uma garrafa de Sprite diet – aquele refrigererda que tem gosto de porra nenhuma com adocil -- e matei-a em instantes. Eu continuava verde, enjoado, pensando se o Verissimo tinha razão sobre a ressaca de licor de ovos e se não seria justo reivindicar mais uma exceção na legislação brasileira para a eutanásia.


O nome do veneno que me levou a esse estágio degradante da existência é Canelinha, uma bebida a base de aguardente, vodca, mel e, obviamente, canela, produzida na Serra da Cantareira, região onde passei uma semana nada santa, a base de churrasco e birita (não foi à toa que engordei três quilos em quatro dias). O sítio fica em Mairiporã, a seis horas de carro do Rio. Chegamos na quinta-feira à noite, eu e Maggi num carro, Rodrigão e Dudu em outro. O resto da galera chegaria na manhã seguinte. Igor, o dono da casa, com um profissionalismo invejável, já havia deixado a cerveja no gelo e as carnes prontas para o espeto e fora buscar o irmão no aeroporto. Depois de tanta estrada, a gente só tinha olhos para o isopor. Pouco depois, Igor apareceu com uma surpresa para o fim de semana, duas garrafas de Canelinha. A bebida é doce e parece inofensiva, leia-se, uma bomba para os desprevenidos ou mais empolgados como eu. O pior, ela não pega de primeira. Estava numa animação só quando os caras foram comprar álcool para acender a churrasqueira, deixando pouco mais de meia garrafa. Quando voltaram, a garrafa estava praticamente vazia e eu, pronto para compor o álbum branco ou entrar para uma montagem de "Hair". Foi praticamente uma experiência lisérgica em que atingi as portas da percepção e por muito pouco não as pus abaixo na base da porrada. Passei dois dias com gosto de canela na boca, jurando a mim mesmo "nunca mais". Apesar disso, comprei duas garrafas para trazer para casa. Acabei tendo que liberá-las para a tropa presente. Só me deixaram trazer de volta uma cana de milho jocosamente chamada "Jegue Daniel's (só não bebe quem é burro, reza o slogan)", pouco convidativa dado o seu cheiro de loló e gosto de removedor. Estou pensando em usá-la como desinfetante.

posted by Maloca | 11:09 AM



sexta-feira, abril 11, 2003  

Bons argumentos contra os exercícios físicos
Adaptação de uma mensagem que recebi do meu amigo China.


-- Se Deus quisesse que tocássemos os dedos do pé, Ele os teria feito mais próximos das mãos.
-- Longas caminhadas são ótimas para serem feitas por pessoas que nos aborrecem.
-- Não corro porque derruba o gelo do copo.
-- Tartaruga não faz nada, anda devagar e dura 200 anos.
-- Se nadar emagrece, por que a baleia é gorda?

posted by Maloca | 6:45 PM



quarta-feira, abril 09, 2003  

O Francis que não era Bacon, mas também filosofava

A cada dia que passa, mais me convenço de que meu amigo Francinei, mais conhecido como Francis, é um pensandor de vanguarda. Primeiro ele definiu com clareza e poder de síntese inigualáveis o que é um quadro econômico de recessão e inflação.
"Ora, neguinho não vai ter dinheiro para comprar o que vai estar caro para caralho e que por sua vez vai estar em falta".
É para figurar entre as tiradas que o Joelmir Beting publica no topo de suas colunas.
Outro dia, enquanto discutíamos as relações dialéticas entre nada e coisa nenhuma, chegamos ao assunto Julio Verne. Segundo Francinei, o escritor teria imaginado uma forma de aproveitar a salinidade da água do mar a fim de gerar energia elétrica. Na opinião dele, um engenho superior ao submarino nuclear.
"Julio Verne inventou o submarino perfeito. Submarino nuclear é merda, é merda! Se você conseguir aproveitar a reação elétrica gerada pelo positivo do sódio e o negativo do cloro, a fonte de energia é inesgotável. Quer dizer, a não ser que você transforme o mar em caldo de cana".
Não sei o que mais me espanta são as idéias do Francis ou o jeito com que sua mente perturbada as concebe.

posted by Maloca | 11:02 AM

Garrafas vazias
O dono da birosca
Fermentados&Destilados